Preto em parede branca. Pensamentos riscados a cobrirem a luz. Um emaranhado de sonhos perdidos, transcritos a tinta que não sai. Imagens caiem do tecto, chamas que turvam a vista de quem as tenta decifrar. A vermelho as marcas, mancham o que já está sujo e modificam-no. O tempo transforma este cubículo. Constante metamorfose que me faz sentir em casa. Mudanças que me transportam para dentro da minha própria mente. Revejo cicatrizes, registando novas feridas semelhantes. A música ecoa na escuridão, disfarçando os gemidos de quem se contorce no frio do chão. Um dia de prazer, outro de dor. É a nossa casa. O refúgio do mundo que nos engole e do horizonte inalcançável. Estes são os gritos silenciosos de quem grita pelo pincel. Mas um dia vou cobrir tudo de branco. Talvez quando deste nada restar. Tudo para manter a esperança de que não me perdi ao tentar encontrar-me. Evolução constante, constrói o que sou com o que fui. Fica tudo o que já passou, seja esse tudo um nada. Mas estou protegida aqui. No meio de mim mesma. Entranhas de um monstro, disfarçado de quem sente.
Carlota Fernandes, 24-01-11
Nada melhor do que pegar num objecto e descarregar tudo num papel ou simplesmente nada melhor do que libertar um grito e deixa-lo vaguear no horizonte.
ResponderEliminarComeçar de novo é complicado mas um refresh é sempre possível.
“A vermelho as marcas, mancham o que já está sujo e modificam-no” sempre que pensamos que terminou, existe sempre algo que se sobrepõem, onde abre as feridas já cerradas e desconstrói, partindo-nos em vários tipos de peças, deixando-nos em cacos.
Mais um teste requer mais opções. Opções certas, opções erradas, andamos sempre nesta inconstância e miserável incógnita da vida.
Este é o molde que constrói o que somos e o que já não somos.
Por esta razão estamos em constante evolução, até que um dia deixamos de o sentir.