quarta-feira, 6 de abril de 2011

natureza

Oco o eco dos gritos na montanha. Como quem tenta alterar a rocha que nos engole em tamanho. Gostava de poder levar tudo isto num bolso meu, não dispensando a tua companhia, numa dimensão liberta do tempo. Vão-me enchendo risos da tua boca salgada. Do gelo da água que separa nos vales, retiro apenas a frescura. Contrasta o branco da pele que calca o verde vivo, na rapidez dançante com que se move a flor ao vento. Este tecto pintado como o mar, imenso azul imerso em calma. Do meu lado, a mais bela jóia em liberdade. Contemplo a sua concha protectora, exposta ao sol que lhe dá tom, queimando. Vê como é belo o chão que pisas correndo! E sufoca-me para inspirares fundo o meu ar. Agarra-me as mãos e os lábios encostados que não se beijam. Apodera-se o ar de um, do pulmão do outro. Finge que sou areia marcada, cicatrizada, embate em mim como se fosse rocha. Sê âncora que me prende a este e ao teu próprio cais de mundos vazios. É que às vezes, ao som da chuva que tenta derrubar o nosso castelo de bolas de sabão (tão frágil!), eu acho que encontrei um paraíso alcançável, aqui mesmo, na Terra de Homens que o querem destruir.

quinta-feira, 3 de março de 2011


Percorro esta avenida, imersa no som que me acompanha. Alheia às caras que cruzo, não lhes vejo o coração. Apática, já não sinto a dor que sentia. Calejada, sozinha, completa. O vazio é preenchido pelas ondas sonoras que me atravessam. Habituada. A falsidade dos sorrisos nunca foi verdade tão aconchegante. Iluminada, na falta de luz que me rodeia, ignoro a escuridão de quem não busca tornar-se crepúsculo igual a mim. Não necessito de compreensão, dada a segurança com que afirmo o que penso. Porém, penso mais do que afirmo. E quantos desses pensamentos são audíveis? Talvez só os ouça quem sente o mundo como eu. Esses poucos que não têm medo da frustração e se questionam daquilo que não tem resposta. Mas já não dói. Apesar de permanecer lá, agora é mero silêncio. E eu, perdida aqui, estou tão cheia de música e barulho, que nem páro para o sentir.

Carlota Fernandes
03/03/11

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sem título

Oco o eco que me sufoca. Já nem sei se sinto o que me dói ou se só reparo no que não sofre. Pequenos, partidos os pedaços que restam de mim. Contorcido corpo usado. Negra a cor da mente, tal como o fumo na boca e nos pulmoes. Sento-me e vejo as chamas a consumirem o que me rodeia. Floresceu o fogo em torno de mim, em ondas que me sossegam a pele. Assisto à morte lenta do vermelho vivo que fiz nascer, transformando-o em cinzas. Só da morte se pode renascer. E hoje eu despedi-me de nós, na esperança que amanhã a tua ausência já não doa.
Desisti de forçar o silêncio dos gritos para não ser ouvida. Por isso vê e ouve o choro de quem levas a alma. E sê bem-vindo ao casúlo da dor, onde sonhos se misturam com memórias e onde se refugia quem não tem nada. Alguém como eu. E tu, um dia.



Ao som de Yann Tiersen,
Fotografia e texto: Carlota Fernandes.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Traços

Preto em parede branca. Pensamentos riscados a cobrirem a luz. Um emaranhado de sonhos perdidos, transcritos a tinta que não sai. Imagens caiem do tecto, chamas que turvam a vista de quem as tenta decifrar. A vermelho as marcas, mancham o que já está sujo e modificam-no. O tempo transforma este cubículo. Constante metamorfose que me faz sentir em casa. Mudanças que me transportam para dentro da minha própria mente. Revejo cicatrizes, registando novas feridas semelhantes. A música ecoa na escuridão, disfarçando os gemidos de quem se contorce no frio do chão. Um dia de prazer, outro de dor. É a nossa casa. O refúgio do mundo que nos engole e do horizonte inalcançável. Estes são os gritos silenciosos de quem grita pelo pincel. Mas um dia vou cobrir tudo de branco. Talvez quando deste nada restar. Tudo para manter a esperança de que não me perdi ao tentar encontrar-me. Evolução constante, constrói o que sou com o que fui. Fica tudo o que já passou, seja esse tudo um nada. Mas estou protegida aqui. No meio de mim mesma. Entranhas de um monstro, disfarçado de quem sente.

Carlota Fernandes, 24-01-11