Percorro esta avenida, imersa no som que me acompanha. Alheia às caras que cruzo, não lhes vejo o coração. Apática, já não sinto a dor que sentia. Calejada, sozinha, completa. O vazio é preenchido pelas ondas sonoras que me atravessam. Habituada. A falsidade dos sorrisos nunca foi verdade tão aconchegante. Iluminada, na falta de luz que me rodeia, ignoro a escuridão de quem não busca tornar-se crepúsculo igual a mim. Não necessito de compreensão, dada a segurança com que afirmo o que penso. Porém, penso mais do que afirmo. E quantos desses pensamentos são audíveis? Talvez só os ouça quem sente o mundo como eu. Esses poucos que não têm medo da frustração e se questionam daquilo que não tem resposta. Mas já não dói. Apesar de permanecer lá, agora é mero silêncio. E eu, perdida aqui, estou tão cheia de música e barulho, que nem páro para o sentir.
Carlota Fernandes
03/03/11
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